terça-feira, 5 de maio de 2015

A GESTÃO DO CUIDADO: AS PONTAS DE UM ICEBERG?




Café da manhã da UPP - Gestão do Cuidado -  Fiocruz 

A Gestão do Cuidado: As pontas de um Iceberg?

Pensar em Gestão do Cuidado vai muito mais além do que o termo pode dizer. É necessário termos uma visão ampla e realista do que a prática do cuidado em saúde traz de significado na experiência com o usuário. A experiência vivida durante a UPP de Gestão do Cuidado, trouxe à luz alguns questionamentos que até então, não haviam sido pensados com tanta veemência, no sentido de entendimento de situações e posturas no agir em saúde.

A relação dos textos com os assuntos tratados no encontro presencial, foi muito importante no sentido de dar mais amplitude a certas questões que passam desapercebidas para quem pensa e faz saúde, uma vez que o cotidiano desse trabalho, muitas vezes se sobrepõe às reais necessidades que envolvem esse ser ( o usuário) que busca para si, um cuidado e uma atenção em suas questões de necessidades prementes, ou seja o seu cuidado em (com a) saúde.

Nesse sentido, a imersão no serviço, mais especificamente na Coordenação Geral de Gestão da Atenção Básica (CGGAB), torna-se fundamental para essa análise que ora apresentarei, uma vez que o embasamento e o entendimento do que  e como se pensa saúde nesse lugar, diz muito sobre o modo de gestão do cuidado em saúde, numa perspectiva mais macro. Assim, esse encontro de teoria, reflexão e prática das estratégias de como tornar o Sistema Único de Saúde (SUS) que queremos, uma realidade, vai se delineando ao passo em que vamos adentrando esse cotidiano de pensar, planejar e tentar implantar políticas que dêem conta desse gigantesco projeto de modelo de sociedade, que é o SUS.

Os textos apresentados na aula presencial foram de grande importância, pois, agora falando de minhas experiências pessoais, trouxeram para mais próximo de mim, um cotidiano do qual não tinha conhecimento de fato, uma vez que, como acadêmica, não havia trabalhado na “ponta” e assim, as experiências relatadas, sempre se apresentavam como uma interrogação. Ponta? Mas que ponta é essa?

O termo “ ponta” tem sido muito utilizado na área da saúde como o cotidiano do serviço em sua essência, nos locais mesmo onde acontecem, local de execução, de práticas; mas  ouso dizer que quem reflete, pensa e operacionaliza as políticas também está na ponta, uma vez que dependendo do ângulo que se olhe, a ponta está para uma direção ou outra.

Digo isso porque comumente quando se utiliza o termo ponta, a primeira figura que vem à mente é a “ponta do Iceberg”, aquela ponta emersa, visível , na qual aparecem as ações realizadas no cotidiano do serviço, suas práticas e ofertas no sentido de dar cabo do cuidado do usuário em todas as suas demandas, o exercício do fazer saúde. Na outra  ponta, submersa, mergulhada, a ponta onde se pensa, se reflete e se buscam meios de operacionalizar esses instrumentos que são utilizados,  que guarda em si, muitos planejamentos complexos e nem sempre tem em seu escopo de ações, possibilidades de operacionalização desses planejamentos, está a gestão.

Esse pensamento e analogia surgiu durante uma atividade da UPP onde deveríamos pensar em formas de melhor operacionalização da Gestão do Cuidado. Assim, reunidos em grupos, pensamos, de uma forma livre, em práticas que qualificariam os processos de gestão do cuidado. Reunidos, a minha sugestão foi de discussão sobre o acesso, vendo nesse assunto, uma grande questão do usuário. Em contrapartida, a maioria queria discutir ambiência. Houve um longo debate de idéias, mas ao fim chegaram à conclusão de que a discussão deveria girar em torno da ambiência. A partir desse momento, me sentindo incomodada com a condução das atividades, fiquei pensando em como discutir ambiência, sem antes pensar na forma como o usuário iria poder ter acesso a todas essas formas de acolhimento. 

Grandes idéias foram surgindo, e eu,  “com o acesso na cabeça”! Quando o professor entrou na sala, para participar das discussões sobre a gestão do cuidado, achou muitíssimo interessante a questão da ambiência, mas eu, ainda incomodada com a questão do acesso ter sido descartada pelos demais, achei uma forma de conversar sobre esse assunto. Assim, questionei se junto com a questão da ambiência, pensando em cuidado, não poderíamos também falar sobre o acesso, uma vez que, sem termos a garantia de acesso, não chegamos a desfrutar da ambiência pensada para os serviços de saúde. Sim, disse o professor, e explicou rapidamente questões sobre o acesso, que foram chamando a atenção do grupo, que diante do exposto pelo professor, provocado por meus questionamentos, uniu a estratégia de formas de acesso e ambiência, como itens para melhoria da gestão do cuidado. Após isso, fizemos uma discussão muito profícua no sentido de pensarmos estratégias que unissem o acesso e a ambiência, e foi o que ocorreu.

Durante todas as discussões, baseadas em texto de Merhy, em algumas colocações do professor, ficou em mim, a importância da micropolítica das relações, quando tivemos que entrar em acordo sobre a operacionalização das nossas idéias, o manejo de situações e casos complexos apresentados para reflexão, através do texto O caso de D. Ana Maura, onde o cotidiano dos serviços engessou de certa forma aquela equipe, e de como se encontram meios  de lidar com esse engessamento, fazendo uso de tecnologias leves, como troca de experiências entre equipes, ou até mesmo lançando-se mão de um outro olhar sobre as mesmas questões, para pensar em formas de manejo dessas situações.

A meu ver, até agora, essa UPP de Gestão do Cuidado, apresentada pelo professor Helvo, foi a mais bem aproveitada,  pela dinâmica envolvida nesse encontro, e por tudo o que provocou em mim e na maioria dos participantes. Nesse sentido, minha imersão no mundo do trabalho, mais especificamente na CGGAB, mostrou-se imensamente rica em todos os sentidos, mas um sentido que para mim teve  maior significado, foi a de ter conseguido fazer com que a questão do acesso caminhasse junto com a questão da ambiência, como formas efetivas de melhoria na gestão do cuidado. Com tudo isso, sinto que os movimentos dos quais tenho me envolvido em minha coordenação, além de melhorar a minha capacidade de análise crítica do contexto, me fazem também perceber o quanto de articulação e parceria, é necessário para que tenhamos êxito em nosso planejamento, no sentido de tornar concreto, tudo o que pensamos, e porque não dizer, sonhamos, para esse SUS mais justo e igualitário para todo cidadão que tem direito e necessidade de ter suas demandas atendidas e acima de tudo, acolhidas como prioridades para as “pontas”!

Referências:
MERHY, Emerson Elias, FUERWERKER, Laura Camargo Macruz e CERQUEIRA, Maria Paula. Da repetição a diferença: construindo sentidos com o outro no mundo do cuidado.

 Caso extraído de: SLOMP JUNIOR, Helvo. Uma experienciação em Educação Permanente em Saúde: ativação coletiva de projetos terapêuticos compartilhados com operação de conceitos advindos da homeopatia. Rio de Janeiro, 2015. Tese (Doutorado em Medicina) – Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2015.


Micropolítica e saúde: produção do cuidado, gestão e formação/ Org. Laura Camargo Macruz Fuerwerker. - Porto Alegre: Rede UNIDA, 2014. 174 p. - (Coleção Micropolítica do Trabalho e o Cuidado em Saúde). 

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