ITINERÂNCIAS ENSINO SERVIÇO
Sabores e dores:
O espaço da cozinha também se mostra um espaço leve muitas
vezes, apesar da tônica das discussões que são feitas nem sempre o sejam.
Todos os dias chego no trabalho e vou direto para a
cozinha.
Cabe aqui uma explicação:
como pego apenas um ônibus e cujo horário me deixa antes de abrir a
unidade, quase sempre chego cedo, juntamente com Raquel, a técnica que mora no
território e por isso mesmo, se encarrega de abrir a unidade todos os dias. Lá,
quem chega primeiro coloca os canecões com
água para ferver, adiantando o trabalho para a Carina, serviços gerais
que faz tudo.
Em certa tarde, quando chegamos ao trabalho Raquel e eu,
havia uma excitação no ar.
Durante o horário do almoço, houve uma situação de
emergência onde uma guria de 11 anos chegou à unidade com fortes dores na
cabeça e enrigecimento muscular. Nanci examinou a paciente e como suspeitou de
síndrome de Guilain Barret, acionou o SAMU e imediatamente a guria foi
encaminhada para o Hospital de referência.
A agente responsável por aquela área não estava naquele
momento, mas quando chegou, trouxe outras informações para ajudar naquele caso.
O relato dela é de que naquele dia, após o episódio com a guria no posto, uma
vizinha lhe disse que a guria havia deixado o irmão que estava sob seus
cuidados, cair, e que a mãe do bebê, sua madrasta ficou muito brava com ela.
A
Agente relatou que o pai da guria era um homem muito bom, trabalhador e
honesto, mas que teve que se separar da mãe da guria e ficou com a guarda, pois
a mãe estava “perambulando” por aí. Segundo seu relato, a madrasta não faz
muita coisa, quem cuida dos filhos é o marido. Ela acredita que talvez a
madrasta possa ter se descontrolado e agredido a menina, talvez jogando-a
contra a parede, o que justificaria as fortes dores na cabeça.
Entre várias indagações sobre os possíveis motivos para
aquela suposta agressão, foi pontuada a displicência do pai no cuidado com a
menina, o que gerou um momento de muita apreensão por parte da agente.
Em um
momento depois, se referindo à possível agressividade por parte da madrasta e
com um sentimento de muita raiva expressado, soltou a seguinte frase: “o diabo
parece ter comparsa”.
Neste momento, foi impossível continuar com o tom que o
momento exigia para dar uma gargalhada diante dessa frase. Assim, um caso
pesado, sério e até perturbador, ganhou um contorno de certa leveza, para que
pudesse ser, talvez, aceito pela equipe.
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