VISITA HOSPITAL COLÕNIA ITAPUÃ – HCI
Projeto de extensão Evolução das Instituições de Saúde sob a coordenação do professor Frederico Viana Machado, teve inicio com a visita ao Hospital Colônia Itapuã, no mês de maio de 2016. Esse projeto foi aberto para os residentes também, e me inscrevi de imediato, pois havia em mim, desde a época da graduação em Saúde Coletiva, o enorme desejo de conhecer essa instituição.
Minha motivação deveu-se ao fato de que, ainda na
graduação, na UPP de Políticas Públicas com o professor Alcindo Antonio Ferla,
fizemos um trabalho sobre o HCI, que nos deixou bastante comovidas com a sua
história.
Como diria Halbwaks:
Nossas lembranças permanecem
coletivas e nos são lembradas por outros, ainda que se trate de eventos em que
somente nós estivemos envolvidos e objetos que somente nós vimos. Isto acontece
porque jamais estamos sós. Não é preciso que outros estejam presentes,
materialmente distintos de nós, porque sempre levamos conosco certa quantidade
de pessoas que não se confundem. (HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São
Paulo: Ed. Centauro, 2006, p.30)
Abaixo trabalho que foi feito naquela época
(2010), como um resgate de memória, revivido no contexto atual
Este trabalho, de revisão bibliográfica, apresenta o Hospital Colônia Itapuã, e correlaciona sua história às políticas de saúde e modelos de atenção vigentes à época de sua criação. Esta instituição é emblemática na trajetória do cuidado aos pacientes portadores de hanseníase, e sua história nos permite compreender uma página marcante desse cuidado: o modelo segregacionista.
Este trabalho, de revisão bibliográfica, apresenta o Hospital Colônia Itapuã, e correlaciona sua história às políticas de saúde e modelos de atenção vigentes à época de sua criação. Esta instituição é emblemática na trajetória do cuidado aos pacientes portadores de hanseníase, e sua história nos permite compreender uma página marcante desse cuidado: o modelo segregacionista.
A segregação dos portadores de
hanseníase seguia um modelo internacionalmente instituído, baseado no que a
Ciência conhecia até então sobre a doença, mas que estava igualmente arraigado
a fatores culturais e religiosos, já que a hanseníase, ou lepra, como era conhecida, é considerada uma das doenças mais
antigas de que se tem relato.
.
¢ Inaugurado
oficialmente em 11/05/1940 – Hospital Colônia Itapuã (HCI).
¢ Criado
a partir de uma política de saúde pública que segregava os hansenianos.
¢ “Iniciativa”
do Amparo Santa Cruz/Origem da Sociedade Pró-Leprosário Rio-Grandense.
¢ Período
do Estado Novo, Era Vargas: intensificação da intervenção federal no combate à
lepra.
¢ Em
1926, uma medida paliativa: dois pavilhões do então Hospital São José foram
adaptados para receber indigentes hansenianos.
¢ A
comunidade do Amparo Santa Cruz estava com “dificuldades” para encontrar um
terreno para o leprosário.
¢ Em
1936, numa parceria entre Estado e Sociedade Pró-Leprosário, foi comprado o
terreno em Itapuã, Viamão.
¢ Início
das obras: 1937.
¢ Irmãs
Franciscanas formariam o quadro de profissionais do Hospital.
¢ Foi
construída uma verdadeira colônia.
¢ Desconhecimento
das formas de contágio – moedas de latão e alumínio. Essa medida tinha duplo
objetivo.
¢ Seguindo
o modelo de área física de outros leprosários, o espaço era esquadrinhado em
área “limpa” e área “suja”.
¢ Prefeitura
dos Internados: Regulamentação interna subordinada à direção do Hospital.
¢ Prefeito
– interno do Hospital.
¢ Todas
as atividades deveriam ser permitidas pela instituição.
¢ Visitas
obedeciam o regimento interno do hospital.
¢ “Delegado”
– paciente interno para punir pequenas transgressões internas.
¢ As
principais transgressões eram as fugas de pacientes internos que eram localizados pelo SPL e trazidos de
volta ao Hospital, ficando detidos por uma a duas semanas na cadeia local .
¢ Negativa
de permissão para sair, viam-se obrigados a fugir.
¢ Limites
impostos pela exclusão:
- Aparente
normalidade da vida cotidiana.
¢ Presença
moral das Irmãs Franciscanas.
¢ Homens
e mulheres solteiros não se misturavam.
¢ Casamentos,
só se permitidos pela Instituição.
¢ Regulamento
Interno separava os filhos recém-nascidos de pais leprosos.
¢ Visitas
– boa vontade das Irmãs Franciscanas, não exercício de direito legítimo entre
pais e filhos.
¢ Sem contato físico, respeitando os limites
entre “área sadia” e “área doente”.
¢ Nas
décadas de 1960 e 1970, houve um “relaxamento” das medidas de isolamento, mas
só em 1987 alguns filhos, já adolescentes, puderam voltar a viver com os pais.
¢ Algumas
crianças foram internadas. Em 1943 foram construídos dois pavilhões.
¢ O
Grupo Santa Inês reunia meninas internas. Oferecia alfabetização, matemática
básica, tarefas domésticas e manuais.
¢ O
Grupo São Luis reunia meninos internos. Oferecia ensino básico e tarefas
manuais.
¢ Falta
de preocupação com a formação das crianças internas, por não verem
possibilidade de alta por cura da doença.
¢ Em
1941, ocorreram as primeiras altas por cura.
¢ No
fim da década de 1950, foi abolido o isolamento compulsório, o que não
significou reinserção social.
¢ Mudança
de nome, cidade e até retorno para o HCI pelo estigma da doença e
impossibilidade de sobrevivência econômica.
¢ HCI
transformado em moradia pelos pacientes que não saíram e os que saíram e não
conseguiram se reinserir na sociedade.
¢ Em
1972, pela superlotação do Hospital Psiquiátrico São Pedro é implantado no HCI
o CAR – Centro Agrícola de Reabilitação.
¢ O
espaço do HCI está dividido hoje entre os pacientes remanescentes do tratamento
de hanseníase e os pacientes
psiquiátricos do Hospital São Pedro.
Atualidade
¢ Hospital
vinculado à Secretaria Estadual de Saúde (SES-RS).
¢ 122
moradores ainda habitam a colônia.
¢ Presta
atendimento ambulatorial de média complexidade, por referência ou demanda
espontânea.
¢ Atende,
também, usuários do Distrito de Itapuã.
Políticas
de saúde: cenários do hospital colônia itapuã
¢ Inauguração
do HCI (1940): modelo Flexneriano.
¢ Sanitarismo-campanhista,
de Oswaldo Cruz, e o isolamento dos doentes.
¢ Foucault
(1977, 1979): “o sonho-político da sociedade pura”.
¢ Monteiro
(1987): O principal objetivo do sistema era proteger a população sadia
¢ 1935:
criação do Departamento de Profilaxia da Lepra (DPL).
¢ “Deu
origem à configuração de um poder paralelo, com todas as características
inerentes a um poder totalitário.” (Monteiro, 1987)
¢ Avanços
da ciência em relação a doença começar a chegar: 1953 – VI Congresso
Internacional de Leprologia.
¢ Década
de 1950/1960: Fim do isolamento compulsório.
¢ Descentralização
do atendimento: de nível federal, para estadual.
¢ 1980:
A OMS institui a poliquimioterapia e implementação de novas diretrizes(Eidt,
2004).
¢ Em
1981, fundação do MORHAN.
¢ Em
1995, aprovação da Lei Federal nº 9010: de “lepra” para “hanseníase”.
hospital Colônia
Itapuã
Fundado
a 11 de Maio de 1940, com o nome de Leprosário Itapuã, o Hospital Colônia
Itapuã (HCI) está situado na Rodovia Frei Pacífico, s/n, no Município de
Viamão, no Distrito de Itapuã, a 60km de Porto Alegre. É uma instituição
vinculada à Secretaria de Saúde do Estado do Rio Grande do Sul (SES-RS), que
presta atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Sua história reproduz uma
página importante da história das políticas e dos sistemas de saúde do Rio
Grande do Sul e do Brasil.
História do Hospital Colônia Itapuã
A
criação do “Leprosário” em Itapuã, como eram então chamados os hospitais de
hansenianos, tem uma trajetória bem semelhante à de várias outras instituições,
inauguradas à mesma época, no Brasil. A fundação do HCI está intimamente ligada
à iniciativa de uma associação beneficente, o Amparo Santa Cruz, da cidade de
Santa Cruz do Sul: para comemorar o centenário da imigração alemã no Brasil, a
comunidade dessa associação pretendia criar um asilo para leprosos – termo como
eram então chamados os hansenianos. Era comum que associações de caridade, se
ocupassem do cuidado aos portadores de hanseníase. O conhecimento sobre a
doença era escasso e o estigma – relatado inclusive em textos da Bíblia –
relacionado a mitos sobre a contaminação, caracterizava o cuidado aos
hansenianos como um ato “altruísta” e “de caridade”. Esse movimento da comunidade
do Amparo Santa Cruz, voltado à criação de um asilo, deu origem à Sociedade Pró-Leprosário Rio-Grandense. (FONTOURA,
BARCELOS E BORGES, 2003)
Em
1937, com a criação do decreto nº1473, de 08 de Março, que declarava de
utilidade pública a Federação das Sociedades de Assistência aos Lázaros e
defesa contra a Lepra, as sociedades, como a Pró-Leprosário Rio-Grandense, passaram
a contar com verbas públicas, para realização dos projetos. Em 1944, foi aprovado
o Regimento do Serviço Nacional de Lepra do Departamento Nacional de Saúde, que
definia as atribuições desse Serviço.
Esses
acontecimentos deram-se na Era Vargas, no período do Estado Novo, que foi
marcado pela intensificação da intervenção federal no combate à lepra. Nessa
época, uma nova postura do poder público permitiu que o Governo Federal
passasse a ser agente ativo em setores onde antes sua presença era mínima.
Anteriormente,
em 1909, houve a instalação de um conjunto de pavilhões na área rural de Porto
Alegre, chamado Hospital de Isolamento São José, que deu origem ao Sanatório
Partenon. Esse era o período da República Velha, em que o modelo de saúde
vigente era o sanitarismo-campanhista. Nessa época, saúde era um problema
social principalmente nos grandes centros urbanos. O movimento sanitarista
tornou-se um importante marco no “processo civilizador” de construção do Estado
Nacional Brasileiro, e na mudança da relação entre Estado e Sociedade. Tinha um
forte cunho militarista, de combate às doenças de massa, e com forte repressão
aos corpos individuais e sociais. Em 1926, dois pavilhões desse Hospital foram
adaptados para receberem pacientes hansenianos indigentes de Porto Alegre. Em
1936, foi inaugurado o Hospital de Emergência para Leprosos, também dentro dos
pavilhões do Hospital de Isolamento São José (FONTOURA, BARCELOS E BORGES,
2003). Esta foi uma medida paliativa, que tentava abrandar o fato de que o
estado do Rio Grande do Sul ainda não contava com uma instituição própria para
o cuidado aos hansenianos.
Uma
das dificuldades encontradas pela comunidade do Amparo Santa Cruz, foi a
escolha de um local para sediar o asilo para os leprosos. Uma ilha situada no
Guaíba, a Ilha do Presídio, foi cogitada, assim como também uma área entre
Santa Cruz e Venâncio Aires. Ambas foram descartadas, porque poderiam se
configurar como focos da doença: o rechaço, o preconceito contra os portadores
da então chamada “lepra”, é milenar. Mais tarde, a Sociedade Pró-Leprosário
Rio-Grandense comprou, então, em segredo, um terreno em Belém Velho, na
periferia de Porto Alegre, num local bem afastado do centro da cidade. Nesse
terreno, se estabeleceu, em 1940, o Amparo Santa Cruz. A idéia era transferir,
posteriormente, os pacientes portadores da hanseníase para este local, sem o
conhecimento dos moradores da região. (FONTOURA, BARCELOS E BORGES, 2003)
Em
1936, o estado do Rio Grande do Sul, envolvido no projeto da Sociedade
Pró-Leprosário, sob a influência de um grupo liderado pela mãe de Oswaldo
Aranha, Dona Luíza, deu um passo importante em direção à construção do
Leprosário, apoiando a Sociedade na aquisição de uma fazenda em Itapuã, um
distrito do município de Viamão. (FONTOURA, BARCELOS E BORGES, 2003) Essa área
era pouco habitada e tinha o acesso dificultado pela estrada. As obras do
Hospital Colônia Itapuã iniciaram-se em 1937.
O
Distrito de Itapuã é situado ao Sul do Município de Viamão, e é banhado pelas
águas do Lago Guaíba e da Laguna dos Patos. A sede do Distrito teria surgido na
metade do século XIX, muito depois da distribuição de sesmarias a colonos
portugueses, ocorrida no século XVII. O solo arenoso, que dificultou o
desenvolvimento da agricultura, levou os colonos a se dispersarem e não
ocuparem as terras. (RIO GRANDE DO SUL, 2010)
A
inauguração do Hospital foi em 11 de maio de 1940. Para formar o quadro de
profissionais do Hospital, o Governo Estadual recorreu a entidades religiosas,
convidando as Irmãs Franciscanas para desenvolver essas atividades. Dentre
elas, havia duas enfermeiras, uma farmacêutica e duas costureiras, além de uma
chefe de cozinha. A ordem franciscana também nomeou um capelão. Ao longo de sua
história, 1454 pacientes foram internados no HCI (FONTOURA, BARCELOS E BORGES,
2003).
Com
a inauguração do Hospital Colônia, iniciaram-se, então, as atividades de uma
verdadeira polícia sanitária: o Serviço de Profilaxia da Lepra, vinculado ao
Serviço Estadual de Saúde, que tinha a função de identificar os portadores da
doença, e levá-los para a internação no Hospital, ainda que compulsoriamente. A
partir disso, casais foram separados, pais e mães foram afastados de seus
filhos.
Como
o próprio nome diz, foi erguida uma verdadeira colônia, com tudo o que fosse
necessário para a vida dos pacientes. Foi construída uma igreja católica, uma
usina, uma padaria, uma praça e um cemitério, longe da área residencial. Na
verdade, a pretensão era a de que os internados não precisassem sair do espaço
esquadrinhado do Hospital. Havia até mesmo a circulação de uma moeda corrente
própria, que tinha dupla função: evitar o contágio, como se pensava à época, e
também dificultar as fugas, já que os internos não teriam dinheiro comum. (FONTOURA,
BARCELOS E BORGES, 2003)
De
acordo com a organização espacial de outros leprosários, essa instituição foi
também dividida em área limpa – “sadia”, e área suja – “doente”. Na área sadia
ficava a administração, a usina, a padaria, a residência das Irmãs, do capelão
e dos funcionários. A área suja era formada por 18 pavilhões onde ficavam os
doentes. Além disso, também foram construídas casas geminadas para abrigar
casais ou, até mesmo, famílias inteiras. A infra-estrutura de atenção à saúde
era composta por um gabinete dentário, um bloco cirúrgico e consultórios.
O
cotidiano no Hospital Colônia era marcado por uma regulamentação muito incisiva,
sendo que os institucionalizados deveriam solicitar autorização para qualquer
atividade que eles pretendessem realizar dentro da área da Colônia. Existia, para esse fim, a chamada Prefeitura
dos Internados, subordinada à Direção do Hospital, no organograma da
instituição. O prefeito era um paciente, escolhido pelo próprio diretor.
À
Prefeitura dos Internados cabia também aplicar punições às infrações às regras
cometidas na Colônia. Para tanto, existia até uma “cadeia”. Isso caracterizava
a Colônia como uma verdadeira microcidade, com todas as representações de uma
aglomeração urbana. Para que as punições fossem aplicadas, o prefeito designava
um “delegado”, que punia delitos como desavenças, embriaguez e pequenos furtos.
O problema maior, entretanto, eram as fugas.
As
fugas, desde a inauguração do HCI, eram freqüentes, e representavam, sobretudo,
o pleno descontentamento de alguns pacientes com a internação compulsória.
Segundo Fontoura, Barcelos e Borges (2003), a própria localização do HCI,
contraditoriamente facilitava as escapadas: o local era distante de Porto
Alegre, mas era junto a morros cobertos por uma densa vegetação. Quando algum
fugitivo era capturado pela Prefeitura dos Internados, era levado à cadeia. Se
conseguisse concluir a fuga com sucesso, o Serviço de Profilaxia da Lepra, e
seu aparato policialesco, trataria de encontrá-lo e reencaminhá-lo ao Hospital.
No
cotidiano das atividades da Colônia, era nítido o esforço que os internos
faziam para tentarem manter suas vidas da forma como viviam fora do isolamento.
Eram promovidos eventos esportivos, festas, gincanas, teatros, que geralmente
aconteciam no chamado Pavilhão de Diversões, construído ainda na década de 40.
(FONTOURA, BARCELOS E BORGES, 2003) Mesmo com o controle das Irmãs
Franciscanas, e suas regrais morais, aconteciam namoros e até mesmo casamentos
na Colônia. Com as uniões, alguns casais tiveram filhos, e, de acordo com o
Decreto 7558, de 11 de Novembro de 1938, eles não poderiam permanecer junto dos
pais, e tampouco deveriam ser amamentados pela mãe, sob o risco de serem
contaminados. A instituição que recebia essas crianças era um abrigo, de
responsabilidade do Amparo Santa Cruz, instalado naquele terreno que havia sido
comprado em Belém Velho.
A
separação de pais e filhos em decorrência da hanseníase teve conseqüências
sociais muito sérias. As crianças até podiam visitar os pais, mas não poderia
haver contato físico. Quando atingiam a idade limite para sair do abrigo,
alguns não tinham para onde ir, e dependiam de outros familiares para
sobreviver. Nas décadas de 60 e 70, houve uma certa “abertura” das políticas de
isolamento, mas só a partir de 1987 é que, então, alguns filhos, já
adolescentes, retornaram a viver com os pais, na colônia. Mas isso não foi
suficiente para desfazer o passado de afastamento e abandono. Alguns pais
chegaram a preferir que seus filhos permanecessem no abrigo até a idade limite
– 16 anos, já que na Colônia não havia oportunidades nem de estudo, nem de emprego.
(BARCELOS E BORGES, 2000)
Algumas
crianças foram internadas, também, em função do contágio. Para abrigá-las,
foram construídos, em 1943, dois pavilhões, sendo que um deles era destinado às
meninas, e outro aos meninos. Contudo, isso não representava, definitivamente,
que havia qualquer preocupação com aspectos relacionados à formação e o
bem-estar dessas crianças. O retorno dessas crianças, em sua maioria já
adolescentes, à sociedade, foi difícil e marcado pelo preconceito. A formação
escolar precária também foi decisiva para o prejuízo na ressocialização. (BARCELOS
E BORGES, 2000)
Em
1941, um ano após a inauguração, de acordo com Fontoura, Barcelos e Borges
(2003), aconteceram as primeiras altas por cura. Assim como houve com os filhos
separados dos pais, levados ao abrigo, ou com as crianças que foram internadas
em função da doença, isso não significaria a possibilidade de reintegração
social: o isolamento era tamanho, que eles teriam de se “readaptar” a um modo
alternativo de vida, convivendo com o estigma de ter sido um interno do
Hospital Colônia Itapuã. Alguns até mudaram de nome, para tentar uma nova vida.
Outros, sem alternativa, acabaram por fixar residência na Colônia.
Ao fim da década de 1950, foi declarado o fim
do isolamento compulsório, em função do avanço no tratamento da doença, e da
diminuição do número de casos. Por esse motivo, além das altas, surgiu uma área
ociosa dentro do Hospital. Em 1972, para ocupar essa área, o estado do Rio
Grande do Sul inaugurou o CAR – Centro Agrícola de Reabilitação, centrado no
propósito do uso da laborterapia como forma de tratamento. Dezenas de
pacientes, oriundos do Hospital Psiquiátrico São Pedro, que se encontrava
superlotado, foram transferidos para o HCI. Uma cerca foi erguida para dividir
hansenianos e pacientes psiquiátricos. Com o passar do tempo, as altas por
reabilitação dos pacientes psiquiátricos foram diminuindo, e, sem condições de
ressocialização – em função do isolamento prolongado, esses pacientes também
acabar por estabelecer residência na Colônia, assim como os hansenianos. Na
década de 1990, o CAR foi desvinculado do São Pedro, e passou a integrar o HCI.
O
Hospital Colônia Itapuã na atualidade
Hoje,
o HCI permanece vinculado à SES-RS. 122 moradores habitam a área da colônia, sendo
82 portadores de sofrimento psíquico e 47 ex-hansenianos. Esses moradores são alvos
de projetos de assistência social, especialmente no que tange à reinserção
comunitária. O HCI também presta atendimento a usuários da região do Distrito
de Itapuã, cerca de 7500 pessoas, de acordo com dados da SES-RS.
É,
segundo informações do Cadastro Nacional dos Estabelecimentos de Saúde (CNES),
uma instituição que presta atendimento ambulatorial de média complexidade,
através de fluxos de referência e de demanda espontânea. O atendimento é prestado por 11 profissionais
médicos e 34 profissionais não-médicos, entre enfermeiros, auxiliares de
enfermagem, psicólogos, assistentes sociais e odontólogos.
A
infra-estrutura é formada por um consultório clínico, dois consultórios para
atendimento de especialidades, um consultório odontológico, sala de curativo,
sala de imunização, sala de nebulização, sala para pequenas cirurgias e sala de
observação. O serviço de apoio conta com uma ambulância, um Centro de
Esterilização de Materiais (CME), farmácia e Serviço de Prontuário de Pacientes
(SPP).
Políticas de
saúde: cenários da história do Hospital Colônia Itapuã
O cenário das políticas de saúde no
mundo, em especial no Brasil, são essenciais para a compreensão da história do
Hospital Colônia Itapuã. A ideologia do
sistema vigente permeia as práticas desse período, marcado pela segregação dos
portadores de hanseníase.
As primeiras instâncias de Saúde Pública
no Brasil foram criadas no ano de 1808, marcado pela chegada da Corte Real
Portuguesa ao Brasil. A preocupação do Estado, durante um longo tempo, esteve
restrita à atuação em tempos de epidemias, e com a vigilância do espaço
público, cumprindo sua função de ordenador da vida comum. A saúde dos
indivíduos ficava mais restrita à filantropia. Segundo Luz (1991), as políticas
e as instituições de saúde desempenham um papel inegável na constituição da
ordem social brasileira.
As políticas de saúde nesse período
seguiam os princípios do chamado “sanitarismo-campanhista”. O principal
representante dessa época foi Oswaldo Cruz, que esteve à frente da Diretoria
Geral de Saúde Pública. Como o próprio nome diz, o sanitarismo-campanhista tem
inspiração militarista, concentrando decisões e consolidando uma estrutura de
saúde “centralista, tecnoburocrática e corporativista”, conforme Luz
(1991). Assim, nessa concepção, é que
foi planejado e inaugurado o HCI.
Um
sistema de saúde é moldado por modelos de atenção e por políticas públicas. O
modelo de atenção Flexneriano se caracterizou como hegemônico ao longo de
décadas, e era o modelo vigente à época do planejamento e da inauguração do
HCI, em 1940. Esse paradigma, biologicista por natureza, tinha o foco centrado
na doença, e não na saúde. Por ser baseado fortemente nas Ciências Naturais,
enfatizava a microbiologia, a existência dos germes. O sistema de atenção à
hanseníase centrava-se no fato de essa doença ser contagiosa, considerando-se o
fato de que o bacilo causador foi isolado por Hansen em 1873. Segundo Mendes
(1996), o sanitarismo campanhista, tem, por detrás de si, essa concepção
monocausal de saúde, interpondo barreiras para impedir a chegada do agente
causador ao hospedeiro. Assim, a melhor forma encontrada na época para impedir
a chegada do agente causador ao hospedeiro, foi isolando os doentes.
A
esse sistema de atenção à hanseníase, observado mundialmente, Foucault também
dedicou suas reflexões. Em textos das obras Vigiar
e Punir (1977) e Microfísica do Poder
(1979), ele fala sobre os dois modelos de quarentena: um suscitado pela peste,
e outro pela lepra. Sobre o modelo da lepra, ele afirma que “o leproso é visto
dentro da prática de exclusão, do exílio-cerca”, onde poderá “misturar sua
lepra à lepra dos outros.” Ele atribui essa exclusão ao sonho político da
sociedade pura, onde o leproso é uma espécie de bode expiatório, de metáfora
para a purificação.
Segundo
Monteiro (1987), nos primeiros anos do séc. XX, verifica-se o aumento das
construções de asilos para os doentes de lepra, mas isso não significava que
eles tivessem verdadeiramente algum tipo de assistência médica. Como às vezes
até a alimentação era precária, e eles podiam circular pela rua, alguns
acabavam esmolando, confirmando a idéia citada na narrativa sobre a história do
HCI, que seu amparo era um ato de caridade. Para Monteiro (1987), ainda, isso ilustra
o fato de que o objetivo dessas ações era proteger a população sadia.
No
período que antecedeu a construção do HCI, havia várias discussões pelo país
sobre a assistência aos doentes de lepra. A noção que acabou prevalecendo foi a
do isolamento compulsório, desencadeando a construção de asilos-colônia em todo
Brasil. Em 1925, foi criado, então, o Serviço – ou, como é nomeado por Monteiro
(1987, p.6), a “Inspetoria” – de Profilaxia da Lepra. A obrigatoriedade levou a
composição de um verdadeiro regulamento para assegurar que os doentes seriam
levados para o isolamento, e impedir que eles de lá saíssem, sem cura. O nome “Inspetoria” traduz bem a idéia do
controle sobre os corpos, numa típica ação do sanitarismo-campanhista. Em 1935,
a Inspetoria dá origem a um “poderoso” órgão: o Departamento de Profilaxia da
Lepra (DPL).
Sobre esse “poderoso” órgão,
Monteiro (1987, p.6, grifo nosso) fala:
Torna-se
interessante verificar a forma como, aos poucos, essa situação foi se
estruturando e se solidificando, a ponto dessa centralização, realizada com
finalidades clínicas e terapêuticas, dar
origem à configuração de um verdadeiro poder paralelo, com todas as
características inerentes a um poder totalitário, inclusive o arbítrio.
Qualquer pessoa, a partir do momento do diagnóstico passava a pertencer a uma
outra sociedade, onde deveria assumir nova identidade: a de portador de Lepra,
com todas as decorrências resultantes, tais como: o cerceamento da liberdade e o tutelamento realizado pelo serviço
médico oficial.
Logo, porém, os
avanços da ciência começaram a chegar. Na própria década de 1940, fármacos para
o tratamento da doença começaram a ser desenvolvidos, e deram bons resultados. Marzliak
et al (2008), relatam que, em 1953,
no VI Congresso Internacional de Leprologia em Madrid, foram traçadas novas
diretrizes para as ações de controle como tratamento ambulatorial, internação seletiva,
e assistência social aos doentes e familiares.
Na década de 1960, no Brasil, foi abolida a internação
compulsória. Os métodos de profilaxia e controle da doença foram sendo
modificados. O atendimento foi descentralizado e, em 1964, a responsabilidade
pelo controle da doença foi transferida de nível Federal para o nível Estadual
(EIDT, 2004). A mudança do nome lepra
para hanseníase foi proposta, na
tentativa de diminuir o estigma social dos portadores da doença. Essa mudança,
entretanto, só aconteceu oficialmente em 1995, com a aprovação da Lei Federal
nº 9010 (BARCELOS
E BORGES, 2000).
Na década de 1980, a Organização Mundial de Saúde (OMS)
instituiu a poliquimioterapia (PQT) para controle e cura da hanseníase. Além
disso: novas diretrizes também foram implementadas: diagnóstico precoce,
vigilância de comunicantes, prevenção e tratamento das complicações da doença (EIDT,
2004).
Em 1981, foi fundado o MORHAN, Movimento de Reintegração das
Pessoas Atingidas pela Hanseníase, uma entidade sem fins lucrativos, que luta
para, dentre outros fins, colaborar para a eliminação da doença e diminuir o
preconceito e a estigmatização de doentes e pessoas já curadas. O MORHAN também
tem um papel essencial na defesa dos direitos dos pacientes, em relação a
garantias sociais, como indenizações por discriminação. Segundo Monteiro
(1987), esse período marcou uma nova era, tanto de ações governamentais, quanto
da mobilização da sociedade civil, em que vários compromissos públicos foram
assumidos, dentre eles, o da reestruturação dos hospitais colônia brasileiros.
O tratamento da doença é, atualmente, ambulatorial e gratuito.
A hanseníase: o que é?
A hanseníase é uma
doença causada por um tipo de bactéria, um bacilo, o Mycobacterium leprae,
também conhecido por bacilo de Hansen, em homenagem a seu descobridor, o microbiologista norueguês
Gerhard Hansen. É tida como uma das doenças mais antigas que acometem o homem,
havendo relato de casos ao longo de toda a história, como na Antiguidade e
também em textos bíblicos. Por ser uma doença de pele, e, portanto, visível,
seus portadores foram rechaçados socialmente, sendo obrigados a viver isolados
por muito tempo.
Segundo informações
do Ministério da Saúde (2010), o bacilo de Hansen tem alta capacidade de
infecção, mas poucos indivíduos adoecem, o que aponta a grande influência das
condições de vida: fatores como desnutrição, aglomerações e a presença de outras
co-morbidades simultâneas são determinantes. O domicílio é um local importante
de contaminação.
A hanseníase
apresenta um grande potencial para incapacitar os indivíduos acometidos, já que
o bacilo se instala na pele e nos nervos periféricos, podendo evoluir para
lesões permanentes, que causam restrição de movimentos, perda da força ou
deformidades nas mãos, olhos e pés. Vem atingindo, predominantemente, a
população economicamente ativa, e é, no Brasil, um problema de saúde pública.
Seus
principais sintomas são a presença de manchas, geralmente esbranquiçadas,
nódulos, caroços, com perda da sensibilidade, acompanhada da perda da força nas
mãos, dos pés e da face. A transmissão se dá por via respiratória, ou seja,
pelas secreções nasais, pelo espirro ou pela tosse. Existem duas formas da
doença: uma forma infectante, e outra não. O reconhecimento dessas formas é
necessário para determinar o tipo de tratamento.
No
Brasil, a hanseníase é considerada uma doença endêmica, e recebe atenção
especial do Ministério da Saúde, da Organização Pan-Americana de Saúde e da
OMS. Mesmo com a redução do número de casos, a intensificação das ações contra
a doença, principalmente do diagnóstico precoce e da prevenção das
incapacidades, vem sendo necessária.
CONCLUSÃO
Realizar
este trabalho, sobre o Hospital Colônia Itapuã, deu ao grupo a oportunidade de
aprender sobre uma instituição tão próxima de Porto Alegre, mas, ao mesmo
tempo, tão desconhecida. As histórias sobre a lepra pareciam distantes, coisas do tempo da Bíblia, das parábolas
de Jesus Cristo, ou da Idade Média, tão comumente exibidas em produções
cinematográficas que ilustram esses períodos.
De
tempos em tempos, na linha do tempo da Humanidade, uma determinada doença ganha
múltiplos significados sociais, torna-se mítica, e, frequentemente, é alvo de
estigmatização. Foi assim com a peste, com a tuberculose, agora, mais
recentemente, com a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA/AIDS), e
também com a hanseníase. Já se passaram décadas desde que o bacilo foi isolado
por Hansen, que o tratamento foi descoberto, que a forma de transmissão foi
definida, mas, infelizmente, o preconceito permanece. É triste saber que alguns
internos do HCI são pessoas que ficaram na Colônia pelo simples fato de não ter
para onde ir, assim como também é triste olhar para trás e saber que crianças
ainda bebês foram separadas de suas mães, num trauma que se estendeu por todas
suas vidas.
Entretanto,
a maior lição que ficou para o grupo foi a de compreender que julgamentos
morais não devem fazer parte do cotidiano de um analista de políticas e
sistemas de saúde. Toda organização de um sistema de saúde é fruto de múltiplos
fatores, dentre eles, do conhecimento científico disponível na época e dos
paradigmas de atenção vigentes, ou seja, são resultados de um momento histórico
e devem ser analisados à luz dessa história.
A
principal tarefa para um analista de políticas e sistemas de saúde é conhecer o
passado, sim, mas não para julgá-lo: é conhecer o passado para lutar pelo
futuro, um futuro com mais informação, com mais divulgação dessa informação,
com um sistema de saúde mais justo e, sobretudo, com menos preconceito e mais
participação social.
REFERÊNCIAS
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http://www.saude.rs.gov.br/wsa/portal/index.jsp?menu=organograma
>. Acesso em 30 Out. 2010.
Enfim, foi uma experiência enriquecedora, pois fizemos a
visita orientada que foi muito importante para entendermos a história daquele
lugar, assustador pela sua história tão triste, mas ao mesmo tempo, um lugar
muito bonito, com algumas casas com moradores que ainda residem lá.
Para saber mais acesse o link


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